Durante décadas, os livros de história atribuíram o conceito científico de viagens espaciais a dois nomes: o russo Konstantin Tsiolkovsky e o americano Robert Goddard. Mas uma descoberta recente de um historiador espacial canadense reescreveu essa cronologia — e revelou que um pastor escocês-canadense já havia elaborado os princípios corretos do voo espacial em 1861, três décadas antes de qualquer um dos dois. A história de William Leitch é um lembrete de que a história da ciência é muito mais complexa — e mais justa — do que os manuais escolares costumam contar.
William Leitch: o pastor que pensou o espaço em 1861
William Leitch nasceu em 1814 na Escócia e emigrou para o Canadá, onde se tornou pastor presbiteriano e reitor da Universidade Queen’s, em Kingston, Ontario. Além de teólogo, Leitch era um observador apaixonado da astronomia e da filosofia natural. Em 1861, publicou um ensaio intitulado “Uma Viagem Através do Espaço” em um jornal de Edimburgo, na Escócia — texto que mais tarde foi incorporado ao seu livro “A Glória de Deus nos Céus”. Nesse ensaio, Leitch não apenas discutia a possibilidade teórica do voo espacial, mas aplicava corretamente a Terceira Lei de Newton (ação e reação) para explicar como um foguete funcionaria no vácuo do espaço.
O que torna o trabalho de Leitch especialmente relevante é precisamente esse ponto: a aplicação consciente do princípio físico correto para o ambiente espacial. Décadas depois, Robert Goddard seria ridicularizado pelo New York Times em 1920 por sugerir que foguetes poderiam funcionar no vácuo — com o argumento de que, sem ar para empurrar, não haveria propulsão. Leitch já havia refutado essa objeção por escrito em 1861. Ele entendia que o foguete não precisa de ar externo para se propulsionar: a ejeção dos gases de combustão em uma direção gera força de empuxo na direção oposta, independentemente do meio em que o veículo se encontra.
Por que Leitch foi esquecido — e como foi redescoberto
A trajetória de Leitch para o esquecimento seguiu um roteiro trágico e banal. O pastor morreu em 1864, apenas três anos após publicar seu ensaio mais importante, ainda relativamente jovem. O jornal de Edimburgo que havia publicado o texto original faliu em 1878, levando consigo o arquivo físico da publicação. Sem internet, sem base de dados digitalizadas e sem nenhum discípulo que carregasse o legado, o nome de Leitch simplesmente desapareceu dos registros históricos da astronáutica.
A redescoberta veio pelo trabalho meticuloso do historiador espacial Robert Godwin, especialista em documentação histórica da exploração espacial. Godwin localizou o texto de Leitch em arquivos digitalizados de periódicos do século XIX e analisou seu conteúdo à luz do conhecimento científico atual. Sua conclusão foi publicada em artigo que gerou debate entre historiadores da ciência: Leitch deveria ser reconhecido como o primeiro a aplicar corretamente a física newtoniana ao problema do voo espacial, antecedendo Tsiolkovsky (que publicou sua equação do foguete em 1903) por mais de quatro décadas.
Tsiolkovsky, Goddard e o contexto da corrida espacial
Mesmo com a redescoberta de Leitch, Tsiolkovsky e Goddard permanecem figuras centrais na história da astronáutica — e com razão. Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935) desenvolveu a matemática rigorosa do voo espacial, incluindo a famosa equação do foguete que leva seu nome, e propôs conceitos como foguetes de múltiplos estágios e o uso de combustível líquido. Robert Goddard (1882-1945) deu o passo decisivo que Leitch não pôde dar: construiu e lançou o primeiro foguete de combustível líquido do mundo, em março de 1926, em Auburn, Massachusetts. Goddard também patenteou técnicas fundamentais — muitas das quais foram usadas sem crédito pela Alemanha nazista no desenvolvimento do V-2, o míssil que se tornaria o ancestral direto dos foguetes modernos.
A história de Leitch não diminui esses legados: ela os contextualiza. Mostra que ideias fundamentais frequentemente surgem antes de sua época, em mentes que não têm os recursos, o tempo ou a visibilidade para desenvolvê-las até sua conclusão prática. A ciência é um processo coletivo e cumulativo — e justo o suficiente para, eventualmente, resgatar os nomes que caíram injustamente no esquecimento.
Perguntas Frequentes
Quem realmente inventou o foguete espacial?
A história é complexa. William Leitch (1861) foi o primeiro a aplicar corretamente a física do voo espacial. Konstantin Tsiolkovsky (1903) desenvolveu a matemática rigorosa do foguete. Robert Goddard construiu e lançou o primeiro foguete de combustível líquido em 1926. Cada um contribuiu de forma distinta para o desenvolvimento da astronáutica.
O que é a equação de Tsiolkovsky e por que ela é importante?
A equação do foguete de Tsiolkovsky relaciona a variação de velocidade de um foguete com a velocidade de ejeção dos gases e a razão entre a massa inicial e final do veículo. Ela é fundamental para calcular quanto combustível é necessário para atingir determinada velocidade no espaço — e ainda é usada hoje em todas as missões espaciais, da SpaceX à NASA.
Quando foi lançado o primeiro foguete espacial da história?
O primeiro foguete de combustível líquido foi lançado por Robert Goddard em 16 de março de 1926, em Auburn, Massachusetts. Voou por 2,5 segundos e atingiu 12,5 metros de altitude. O primeiro foguete a sair da atmosfera terrestre foi o alemão V-2, em 1942. O primeiro a entrar em órbita foi o Sputnik soviético, em 1957.
Existem inventores brasileiros na área aeroespacial?
Sim. O Brasil tem a Agência Espacial Brasileira (AEB) e o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Inventores independentes afiliados à ANI (Associação Nacional dos Inventores) também desenvolvem tecnologias com aplicações aeroespaciais e registram patentes no INPI. O país tem potencial relevante nessa área dado sua posição geográfica privilegiada próximo à linha do Equador.

