Sistema de Aprendizagem da Fala

Quem alguma vez estudou canto e penou com os exercícios de respiração, relaxamento e percepção de funcionamento do aparelho fonador pode imaginar pelo que passam os portadores de deficiência auditiva. Aprender a falar quando não se pode ouvir a própria voz leva, em média, dez anos de esforço contínuo e árduo, e um bocado de dinheiro. Isso porque a pessoa que sofre de surdez não pode perceber nem corrigir seus próprios erros de articulação sem algum tipo de sistema externo que lhe forneça um “feedback”, como um espelho, ou a sensação de vibração na garganta, com a orientação de um fonoaudiólogo.

 

Cerca de 10% dos brasileiros enfrentam este problema. Foi pensando neste parcela da população, que o aluno de mestrado da COPPE , Paulo de Oliveira Tujal, acaba de desenvolver um software, inédito, que fornece um feedback, (ou realimentação visual) indicando claramente qual foi o erro na emissão da voz. Através de um computador equipado com placa de som é mostrada a figura do aparelho fonador na posição correta para emitir determinado som. Ao lado, uma figura animada em tempo real mostra o aparelho fonador no momento em que a pessoa emite o som no microfone acoplado ao computador. Comparando as duas figuras, é possível verificar se o processo de fonação está errado, e se o erro está na posição da língua, dos lábios, na abertura do maxilar ou nas cordas vocais. “É muito complicado transformar o som nesta representação”, diz o orientador da tese, Márcio Nogueira, professor do Programa de Engenharia Biomédica da COPPE. “Envolve captar o sinal de voz, digitalizar, analisar e transformar o sinal na imagem do aparelho fonador”, explica.

A parte de arte também foi um desafio. A primeira figura do corte longitudinal da cabeça e pescoço, mostrando todo o aparelho fonador, foi considerado muito estilizado pela funcionária da UFRJ, Marlene do Prado, deficiente auditiva que assessorou os pesquisadores. Foi usada então uma imagem em vídeo de raios-X, chamada videofluoroscopia, que também foi rejeitada. Afinal se optou por criar um desenho em cima do vídeo, aproveitando o talento artístico do mestrando. O projeto foi apresentado em novembro passado no International Annual Conference of the Engineering in Medecine and Biological Society, em Chicago, EUA, onde o Brasil foi representado por cinco projetos, sendo três da Coppe.

A primeira e mais importante etapa de aprendizado, a de implantação de fonema, leva em torno de dois anos, e se não é bem-feita, muitas vezes compromete todo o processo. Este software seria usado nesta primeira etapa, e, além de reduzir o tempo de aprendizado, é decisivo para motivar o deficiente para prosseguir nas etapas seguintes. É uma nova esperança para quebrar o isolamento social do deficiente auditivo e melhorar seu desempenho escolar, particularmente os de baixa renda.

O processo de aprendizagem da fala por parte dos deficientes auditivos é um processo complexo e demorado devido a falta da realimentação auditiva. Essa dificuldade geralmente faz com que o surdo não se utilize da comunicação oral por não saber articular, ou por ter vergonha de fazê-lo de modo que cause estranheza aos outros. Esta falta de contato oral acaba afetando o desenvolvimento psicossocial do indivíduo. Neste sentido, o desenvolvimento de sistemas que viabilizem uma melhor qualidade de fala e voz ao surdos, podem resultar numa melhor integração deste indivíduos a sociedade.

Estamos desenvolvendo sistemas para o treinamento de oralização destes deficientes, utilizando várias técnicas de processamento de sinais técnicas, que auxiliam o profissional de fonoaudiologia na terapia do paciente. Estes sistemas estão sendo desenvolvido em ambiente IBM/PC compatível, sendo que a parte de aquisição do sinal de voz é realizada através de uma placa SoundBlaster. A escolha de tal plataforma de desenvolvimento se justifica por razões de custo decrescente e pela sua grande difusão no mercado. O assim chamado Módulo de Vogais foi o primeiro sistema desenvolvido dentro do projeto e se encontra em plena utilização no INES, como parte do processo de Estimulação Global, desenvolvido pela Fga. Waldelice.

Os avanços científicos têm se mostrado pouco efetivos em desenvolver tecnologia aplicada ao auxílio a deficientes (físicos e/ou sensoriais) e em torná-la acessível a esta população alvo. Talvez uma explicação para este fato seja o aspecto comercial pouco atraente dos avanços tecnológicos que podem ser alcançados. Isto faz com que os poucos equipamentos disponíveis (geralmente no mercado internacional) tornem-se caros e pouco acessíveis tanto ao deficientes como também aos próprios profissionais de saúde que os tratam. Exemplos de tais sistemas são o SpeechViewer (©IBM Corp.) e o Dr. Speech (©Tiger Eletronics, Inc.).

 

Fonte:

http://www.coppe.ufrj.br/planetacoppe.old/noticias/surdez.html

http://www.ines.org.br/Paginas/atividades.html

acesso em março de 2002

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