Sistema de Controle de Poluição e Valorização de Dejetos Suínos

O oeste de Santa Catarina apresenta as maiores concentrações de suínos de todo o Brasil. A região é o berço no país do sistema de criação integrada aos frigoríficos e mantém sua importância nessa cadeia, abrigando hoje cerca de 3,7 milhões de exemplares – quase 30% do plantel nacional. A outra faceta dessa participação significativa é o elevado volume de dejetos líquidos produzidos pelos animais, alojados, sobretudo, em pequenas propriedades. A quantidade de fezes e urina provenientes de suínos varia em função de características como idade do exemplar, tamanho, tipo de alimentação e manejo recebidos; entretanto, há um estudo apontando que um animal destinado ao abate, que tem de 25 a 100 quilos, produz média de 7 litros de dejetos diariamente.

 

Esses efluentes são muitas vezes aplicados sem critério em lavouras ou lançados diretamente em cursos d’água. Para reduzir esse impacto ambiental, a Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia, SC, e a Dalquim, indústria química com matriz em Itajaí, SC, desenvolveram uma pequena estação de tratamento para dejetos, com o apoio da prefeitura de Seara e da Chapecó Alimentos, também sediada na região. O sistema batizado como Sidal/Embrapa, associa processos convencionais a novas tecnologias para o manejo de resíduos.  O que os técnicos preconizam é que, além da instalação para armazenamento, os suinocultores providenciem ainda o tratamento dos dejetos. A Embrapa já desenvolveu anteriormente um sistema desse tipo que utiliza um decantador, para separar o lodo, que pode ser aplicado na cultura, do líquido, que passa por diversas lagoas e reduz sua carga orgânica. Depois disso, segue para outra lagoa contendo aguapés (plantas aquáticas), onde são removidos o nitrogênio e o fósforo dos efluentes. O sistema Sidal/Embrapa, no entanto, imprime maior velocidade à degradação de matéria orgânica e à remoção de poluentes e patógenos. Além disso, é mais eficiente no tratamento da água e ocupa menor espaço. “Ele é especialmente indicado para quem tem grande volume de suínos, mas não possui muita área para utilizar o lodo”, explica Carlos Perdomo, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves.

O sistema piloto do Sidal/Embrapa, começou a ser instalado há um ano e meio nas terras de Carmelindo Bedin, do município de Seara, que aloja 380 matrizes de suínos, produzindo mensalmente cerca de 570 leitões. Os dejetos produzidos pelos animais são direcionados a uma esterqueira e depois bombeados para uma construção onde é feita a separação das partes sólidas e líquidas dos dejetos, para aumentar a eficiência do processo. Uma peneira vibratória retém os resíduos maiores, como pelos e grãos não digeridos, que são levados a um secador a lenha, idealizado pelo próprio Bedin. “Isso facilita o manuseio e o ensacamento. Também confere melhor qualidade para ser usado nas lavouras, pois elimina o cheiro e os pelos presentes, que iriam para o solo”, atesta o produtor. “Esse material é muito rico em nutrientes, podendo ser utilizado na ração de cães e gatos, como adubo na produção de flores e hortaliças, em compostagem etc.”, afirma o pesquisador Carlos Perdomo.

A parte líquida dos dejetos é conduzida a um tanque denominado equalizador de vazão, para evitar sobrecargas do sistema e aumentar sua eficiência, onde é adicionado um catalisador biológico. Trata-se de solução de bactérias comerciais importadas do Canadá, que conseguem decompor o material mesmo com baixos níveis de oxigênio, tornando o processo mais rápido e reduzindo entupimentos. De acordo com Marcus Cazarré, da Dalquim, foram usados 10 litros da solução para colonizar o sistema e outros 20 para fazer a manutenção dos níveis de povoamento. “Estamos há três meses sem colocar mais bactérias, e a decomposição vem se processando normalmente”, conta. Do equalizador, o material passa para uma lagoa anaeróbia (sem oxigênio) onde há nova decantação de sólidos. Na propriedade de Carmelindo Bedin, em vez de uma dessas lagoas, são aproveitadas três, remanescentes do sistema de tratamento que ele utilizava antes.

 

O líquido prossegue cada vez mais limpo, com menor quantidade de cargas orgânicas e poluentes. A etapa seguinte ocorre no biofloculador, tanque redondo dotado de aerador no centro. Uma bomba submersa agita o efluente, succionando ar e incorporando oxigênio à massa, criando condições para o desenvolvimento de bactérias que precisam de oxigênio para promover a degradação do material. A turbulência no tanque mantém os sólidos em suspensão, facilitando sua separação da água.

Ao seguir para a próxima etapa, o líquido recebe automaticamente uma dose de sulfato de alumínio, que acelera a velocidade de precipitação e agregação de partículas. É conduzido então a um separador, o dalscreener, que remove os sólidos. O equipamento libera microbolhas de ar que aderem às partículas sólidas, levando-as à parte superior da máquina, onde são retiradas. O passo final seria fazer a água passar por um filtro, equipamento ainda não instalado na propriedade de Bedin.O tratamento feito através do sistema que utiliza a lagoa de aguapé leva 120 dias. Já no novo projeto, o período pode ser encurtado até pela metade, dependendo da carga orgânica contida nos dejetos. A água obtida no final do sistema Sidal/Embrapa não é potável, mas tem níveis muito mais baixos de matéria seca, nitrogênio, fósforo e coliformes fecais do que o líquido resultante do outro sistema. “Às vezes, esses níveis são tão bons que permitiriam que a água fosse jogada diretamente nos rios, mas o ideal seria reutilizá-la na propriedade, na lavagem das instalações, por exemplo”, afirma Cazarré. O projeto idealizado por Dalquim e Embrapa tem custo estimado de 150 a 200 reais por matriz alojada. “O valor parece elevado, mas representa muito pouco do custo total de produção, podendo ainda ser abatido se implantado em conjunto entre diversos criadores e utilizando algumas estruturas já existentes no local”, argumenta o técnico da Dalquim. Sem mencionar os benefícios ambientais que o sistema promove, o que não tem preço.

 

Fonte:

http://globorural.globo.com/edic/192/rep_tecnologiaa.htm

http://www.dalquim.com.br/sidal.htm

acesso em março de 2002

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